"Populismo Incompreendido", por Tomás Albuquerque
Hoje o Hermes traz-te um texto escrito pelo Tomás Albuquerque, aluno do 1° ano do curso de História, sobre a ascensão do Populismo no mundo e particularmente em Portugal.

Queremos combater o populismo em Portugal? Não sejamos, então, ignorantes ao ponto de o classificarmos como um movimento irrelevante.
Convém, primeiro, entender que a ascensão do populismo pelo mundo não começou com Trump ou com o Brexit mas que, pelo contrário, estes dois casos seguiram exemplos que surgiram, anteriormente, na Europa como, por exemplo, Marine Le Pen na França, Matteo Salvini em Itália e Viktor Orbán na Hungria. Porém, o nacional-populismo, mais recentemente conhecido à escala mundial na figura de Jair Bolsonaro, surgiu, segundo a grande maioria dos historiadores, no século XIX com os Narodniks russos que defendiam a liberalização do regime cesarista autocrático, valorizavam a vida rural simples e os valores autênticos da população em ações que tinham como principal objetivo ir ao encontro dos interesses do povo.
Nos dias de hoje, assistimos a uma ascensão, cada vez mais significativa, do nacional-populismo em Portugal e, para a compreendermos, não podemos cair na ignorância de não reconhecer a sua importância. E, no meu ponto de vista, é muito simples de explicar esta ignorância: aqueles que se dizem democráticos temem as críticas reais que o populismo aponta à democracia do momento. Precisamos, urgentemente, de compreender que os populistas abordam uma grande variedade de problemas que não têm sido resolvidos pelos governos e que atormentam as populações.
Para que, em Portugal, não tropecemos no erro de combater o populismo com populismo e para que não sejamos ignorantes ao desvalorizar a voz populista, relembro-vos algumas das principais causas pelas quais lutam os nacionais-populistas. Estes encarnam a vontade geral do povo e, em Portugal, André Ventura e os deputados do Partido Chega, partido que ele próprio fundara, cumprem a essência do populismo ao serem, no parlamento português, «a voz do povo». Com a geral crise das Democracias Liberais, os apoiantes do Chega não se sentem representados pelos partidos moderados e entendem que estes são incapazes de responder aos problemas da população. Além disso, sentem que as elites não representam toda a sociedade, são corruptas e distantes. Questionam a desigualdade económica e social, bem como os grandes fluxos de imigração desregulada que, na perspetiva de muitos, é uma séria ameaça à civilização europeia. Embora saibamos que alguns nacionais-populistas tendem a ser racistas e xenófobos, sobretudo no que diz respeito à população muçulmana, não podemos nem devemos ignorar que a grande maioria se preocupa com os medos, as dificuldades e os anseios dos portugueses ao levantar problemas reais que ocorrem no país.
Será assim tão surpreendente o crescimento do nacional-populismo quando a democracia liberal nos habitou a uma participação das massas e que, hoje, ao invés disso, as pessoas sentem que não têm uma palavra a dizer? Será assim tão surpreendente quando, na opinião de pessoas mais conservadoras, a imigração pode contribuir para uma destruição da sociedade, dos costumes nacionais e os habituais modos de vida? Será assim tão surpreendente quando muitas pessoas se preocupam com o atraso do país em comparação a outros países europeus e com futuro dos seus filhos e familiares? Eu penso que não. Agora, se me perguntarem se o nacional-populismo e os partidos populistas são a resolução para as crises das democracias liberais, responderei com convicção que não e que, aliás, está longe de o ser. Apenas defendo que para combatermos o populismo precisamos de responder com as respostas certas para os problemas legítimos que este movimento levanta e não utilizarmos argumentos falaciosos que irei, de seguida, apresentar sob a forma de algumas questões.
O Chega é de extrema-direita? Eu, inocentemente, diria que sim se a direita com representação parlamentar, em Portugal, existisse para além do Chega. Digo isto porque, na minha opinião, no parlamento português, nem PSD nem IL são, claramente, de direita. Estando estes dois partidos encostados ao centro, concordando diversas vezes à esquerda, embora um em termos económicos e outro em termos ideológicos, e tendo em conta as «extremas direitas» que já existiram na história da Europa, posso afirmar que o Chega é claramente uma direita mais radical, mas, não consigo afirmar com toda a certeza que seja uma extrema-direita.
O Chega é um partido antidemocrático? Até ao dia de hoje, penso que não. Isto porque, por todo o mundo, a grande maioria dos partidos populistas apenas se opõem a alguns aspetos sobre o modo como se consolidaram e como evoluíram as democracias no Ocidente. Além disso, muitos populistas chegam mesmo a desejar «mais democracia», algo que se traduziria num menor poder das elites em comparação com o povo. E, se formos honestos, conseguimos facilmente reconhecer que este partido levanta legítimas preocupações democráticas que os portugueses querem ver resolvidas.
O Chega é, somente, apoiado por homens brancos mais velhos? Dizer que o Chega é mantido por portugueses brancos com idades avançadas é mais uma das falácias em que vamos acreditando. Este partido, embora seja verdade que tem na sua maioria o apoio de homens, é seguido por um grande número de mulheres. Para além disso, o número de jovens e recém adultos que se identificam com as ideias políticas de André Ventura, por se sentirem renegados e terem maus pressentimentos em relação ao seu futuro, é cada vez maior. Também não é justo afirmar que o partido é mantido por indivíduos com cor de pele branca porque, na realidade, estes populistas são apoiados por pessoas de outras raças.
Os apoiantes do Chega são pessoas pouco inteligentes que carecem de estudos? Também não. Aliás, basta apenas pararmos para observar o incrível percurso académico do presidente deste partido. Este argumento não passa de um estereótipo que nos ilude porque sabemos perfeitamente que os eleitores de todos os partidos são, embora divergindo nas quantidades de uns para os outros, simultaneamente, pessoas com muita e com pouca formação. Contudo, as pessoas sem curso superior têm muito mais probabilidade de votar nos populistas pelo simples facto de a formação académica exercer uma elevada influência nos valores dos indivíduos e na forma como estes interpretam os problemas do país. No momento da decisão, a educação da população tem mesmo um papel mais decisivo do que os rendimentos, a classe social, a idade ou a sexualidade dos eleitores.
O nacional-populismo, ao contrário do que se afirma, terá sucesso? Sim. Segundo vários estudos, a longo prazo, estes movimentos terão um potencial elevado. Enquanto as desigualdades crescerem e as pessoas desconfiarem, cada vez mais, dos partidos mais moderados, o populismo não perderá o seu efeito, pelo contrário, irá ganhar mais influência.
Acabada esta minha reflexão e tendo em conta os poucos tópicos que defendi, concluirão erradamente que me revejo nos valores e nas ideias defendidas pelos populistas. Sou de centro-esquerda. E partilho esta posição ideológica para que se entenda que, embora defendamos políticas diferentes daquelas pelas quais lutam os populistas, devemos manter a mente aberta ao aceitar a verdade, não fugindo à realidade. Daqui para a frente haverá populismo em Portugal enquanto houver democracia, portanto, cabe-nos a nós combate-lo, não caindo, repito, na ignorância de acharmos que ele não é relevante, que não veio para ficar e de lhe respondermos com mais populismo no que diz respeito ao discurso que optamos por adotar.
- Tomás Albuquerque